RESENHA POLÍTICA

Confúcio dá sinais de desgaste, Mosquini é alvo de críticas e eleição de 2026 caminha para polarização

Postura mais livre do senador do MDB levanta dúvidas sobre futuro político, proposta ambiental de Mosquini gera reação e cenário nacional caminha para disputa polarizada sem terceira via competitiva
Robson Oliveira
Confúcio dá sinais de desgaste, Mosquini é alvo de críticas e eleição de 2026 caminha para polarização

EFEITO

Há políticos que falam para agradar. Outros, quando percebem o esgotamento do jogo, passam a falar o que pensam. O senador Confúcio Moura (MDB) parece ter migrado, com certa discrição, da primeira para a segunda categoria. Sem as amarras de um ambiente intoxicado pela polarização e, sobretudo, pelo cálculo eleitoral, Moura voltou a escrever com franqueza. Não se trata de rompante, mas de método. Posições claras, por vezes incômodas, mantidas com a coerência de quem já não mede cada palavra com régua de marqueteiro. O efeito é previsível. Reações acerbas. Ainda assim, ele segue.

LIVRE

Em Rondônia, onde o conservadorismo virou não apenas maioria, mas também régua moral, tocar em certos temas é flertar com desgaste imediato. Moura sabe disso. Sempre soube. O ponto é outro. Saber e, ainda assim, insistir. Esse tipo de liberalidade, rara no MDB local, não costuma ser compatível com quem está preocupado em renovar mandato.

SINAL

Há, portanto, um sinal político embutido no comportamento. Quando um senador experiente escolhe temas que geram rejeição em vez de evitá-los, o gesto fala mais alto que qualquer declaração protocolar. Ou está apostando numa improvável pedagogia do eleitor, ou já não está exatamente interessado em disputar o próximo pleito.

RISCO

Nos bastidores, a leitura é menos filosófica e mais direta. Moura tem demonstrado cansaço. Não da política em si, mas do ambiente que a cerca. A escalada da agressividade, a lógica binária que transforma divergência em inimizade e o risco físico que passou a rondar a vida pública ajudam a compor esse quadro.

AVISOS

O episódio de Cujubim é sintomático. Reduto histórico, onde sempre foi bem votado, virou território evitado. Não por estratégia, mas por precaução. A informação de que há grupos dispostos à hostilidade e até agressão não é exatamente um convite à campanha. É, no máximo, um aviso. E avisos, na política, raramente são ignorados por quem já não precisa provar mais nada.

RECADO

Se insistir nesse tom, sem recalibrar discurso ou buscar zonas de conforto eleitoral, Moura vai deixando um recado em aberto, porém cada vez mais legível. Talvez já tenha entregado o que pretendia entregar. O resto, ao que tudo indica, não compensa o custo.

AMPUTAÇÃO

Há projetos que nascem para resolver problemas. Outros, como o do deputado Lúcio Mosquini, parecem surgir com a missão inversa: apagar as luzes justamente onde a fiscalização começa a enxergar melhor. A proposta de restringir o uso de imagens de satélite no combate a crimes ambientais não é apenas tecnicamente questionável - é politicamente reveladora. Em plena era em que o desmatamento é monitorado em tempo real, a tentativa de amputar essa ferramenta soa menos como preocupação com excessos e mais como zelo seletivo. Zelo com quem, exatamente?

LINHA

Não é segredo nos bastidores que parte dos colaboradores de campanha do parlamentar inclui produtores já autuados por infrações ambientais. Coincidência ou não, o mandato segue uma linha: combater instrumentos de fiscalização e flexibilizar normas. Uma atuação cirurgicamente alinhada aos interesses de quem prefere a mata fora do radar.

EUFEMISMO

O argumento de “excesso de fiscalização” virou o novo eufemismo para tolerância com irregularidades. Ao mirar nos satélites, Mosquini não ataca uma tecnologia -ataca a capacidade do Estado de agir com precisão. É a troca deliberada da evidência pelo achismo, da prova pelo discurso. Como sua atuação é voltada para este setor, não se preocupa com as críticas. Nem o Meio Ambiente.

RETROCESSO

Na prática, o que se propõe é um retrocesso operacional: voltar a um modelo em que crimes ambientais dependem de flagrante presencial, como se estivéssemos nos anos 80. Um convite aberto à impunidade em regiões onde a logística já favorece quem desmata e ocupa ilegalmente.

MONOTEMÁTICO

A atuação do deputado na Câmara, aliás, não deixa margem para dúvida. Sua agenda ambiental tem sido monotemática: reduzir controles, enfraquecer órgãos fiscalizadores e relativizar danos aos biomas. Tudo embalado no discurso do “progresso”, que, curiosamente, quase sempre coincide com os interesses de grandes produtores e financiadores políticos.

BLEFE

No fim, o projeto não trata de tecnologia, nem de soberania, nem de justiça. Trata de prioridade. E a prioridade, ao que tudo indica, não é o meio ambiente - é quem lucra quando ele deixa de ser protegido. Mosquini chegou a anunciar uma suposta candidatura a governador que, conforme a coluna, não passou de um blefe. Mas achou que a atuação junto ao Agro seria capaz de levá-lo a voos mais altos. Ledo engano.  

RECUO

A eleição de 2026 começa a ganhar contornos de crônica anunciada. Não há ainda campanha, mas já se delineia o enredo: poucos personagens, falas previsíveis e um desfecho que ameaça chegar antes da hora. A retirada de Ratinho Júnior da cena presidencial não altera apenas a lista de pré-candidatos - expõe, com alguma crueza, o esvaziamento de uma alternativa que nunca chegou a se firmar.

DENSIDADE

Sem o paranaense na pista, a polarização entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro deixa de ser apenas provável e passa a ser estrutural. Não por força dos dois, necessariamente, mas pela incapacidade dos demais de ocupar o espaço intermediário com densidade eleitoral mínima.

ANTECIPANDO

A matemática é simples, ainda que politicamente indigesta: para haver segundo turno, alguém precisa romper a barreira simbólica de 5% a 6% dos votos válidos. Sem isso, o eleitorado se comprime nos polos e antecipa a decisão. É menos democracia vibrante e mais plebiscito disfarçado.

IRRELEVANTE

Nesse contexto, o nome de Eduardo Leite surge como peça decorativa de um jogo que exige protagonismo. Seu capital político, até aqui, não demonstra musculatura nacional para segurar esse percentual crítico. Pode até pontuar, mas dificilmente altera o roteiro. E eleição presidencial não perdoa candidaturas que entram apenas para “marcar posição”: elas acabam marcadas pela irrelevância.

EMPURRANDO

Sobra então Ronaldo Caiado como variável incômoda. Não exatamente por empolgar massas, mas por reunir um ativo raro neste ciclo: capacidade de dialogar com segmentos conservadores fora do eixo bolsonarista puro e pelo fato de antagonizar com o lulismo desde 1989, quando disputaram a presidência. Se ficar no jogo, pode ser o responsável por empurrar a disputa ao segundo turno - não por força própria, mas por drenagem suficiente para evitar o desfecho antecipado.

ALTERNATIVA

Se, porém, Caiado também recuar, o roteiro encurta de vez. A eleição deixa de ser uma construção e vira uma formalidade. Lula e Flávio avançam como finalistas já no primeiro ato, com o eleitor reduzido a escolher cedo demais entre dois projetos que se alimentam da ausência de alternativas viáveis.

LUXO

No fim, o que está em jogo não é apenas quem vence, mas se haverá, de fato, disputa. Porque, sem terceira via competitiva, o segundo turno vira quase um detalhe burocrático - ou pior, um luxo desnecessário.

VISITA

Em Rondônia, a liturgia do cargo de vice virou peça de ficção, daquelas mal escritas e mal ensaiadas. A mais recente encenação vem de Cacoal, onde o pré-candidato ao governo Hildon Chaves (UB) fez uma visita nada protocolar ao vice-prefeito Tony Pablo, acompanhado do deputado estadual Cirone Deiro.

EGOS

O encontro, devidamente embalado para redes sociais, serviu menos para projetar alianças e mais para escancarar fissuras. Tony Pablo, ainda à sombra do titular Adailton Fúria, também pré-candidato ao governo, deixou evidente que a convivência interna é bem menos cordial do que sugerem os sorrisos oficiais. Nos bastidores, a relação entre prefeito e vice é marcada por disputas de ego; em público, seguem o script das amenidades.

BELIGERANTE

Mas o roteiro falhou. Ao receber um adversário direto do seu prefeito, Tony antecipou um cenário de confronto assim que Fúria deixar o cargo para disputar o Palácio. Ainda não empossado como titular, o vice já se comporta como ator independente e, ao que tudo indica, disposto a reescrever o enredo sem consultar o antigo parceiro.

CÁLCULO

A reação foi de deboche. Tony Pablo foi às redes para dizer que não deve nada a ninguém e que faz o que bem entender politicamente. De quebra, expôs o prefeito ao relembrar seu passado fora da política, numa crítica disfarçada de memória. Não é rompimento. É provocação aberta e calculada. Uma forma que Tony busca para tentar se firmar num mundo que o voto é quem revela a liderança.

MALDIÇÃO

O episódio não é isolado; é sintoma. Em Rondônia, o cargo de vice se tornou uma incubadora de crises. Foi assim quando Aparício Carvalho tensionava o governo de Valdir Raupp. Repetiu-se com Odaisa Fernandes e Ivo Cassol, numa convivência tão desgastada que descambou para constrangimentos públicos.

ENREDO

Na capital, o próprio Hildon Chaves experimentou o amargo do vice insurgente no primeiro mandato, ao lado de Edgar do Boi. Mais recentemente, Magna dos Anjos rompeu com Léo Moraes antes mesmo de qualquer teste de lealdade mais exigente. E no topo da hierarquia estadual, o enredo se repete com Marcos Rocha e seu vice, Sérgio Gonçalves, cuja relação virou sinônimo de desconfiança política.

FRACASSO

A constante é clara. O cargo de vice, pensado como complemento, virou ponto de tensão permanente. Sem densidade eleitoral comparável à do titular, muitos vices compensam com ambição precoce e movimentos que frequentemente descambam para a ruptura. Quanto tentam carreira política solo todos eles fracassam.

RECADO

Cacoal apenas atualiza essa tradição. Tony Pablo ainda nem assumiu o comando do município, mas já sinaliza que governará com agenda própria ou contra quem for necessário. Para Adailton Fúria, o recado está dado. A transição, se vier, não será pacífica. No fim, Rondônia consolida uma peculiaridade política. Por aqui, o maior adversário de um titular pode não estar na oposição, mas sentado na cadeira ao lado.

REPERCUSSÃO

Na liturgia básica da política, prefeito que se preza conversa com todo mundo. Receber adversários, aliados ou aspirantes a alguma coisa faz parte do ofício - não é escândalo, é agenda. Sob esse prisma, o encontro entre o vice-prefeito de Cacoal, Tony Pablo, e o pré-candidato ao governo Hildon Chaves não deveria render mais do que uma nota de rodapé. Buscar pontes é, ou deveria ser, obrigação de quem administra. O ruído não nasceu da reunião, mas da reação.

ÍMPETO

Ao ser confrontado por jornalistas sobre a possível leitura de “traição” ao prefeito Fúria, Tony preferiu trocar a cautela pelo ímpeto. Em vez de esfriar o assunto, jogou gasolina. Disse-se livre para apoiar quem quiser - o que, em tese, é óbvio. Mas na política, o óbvio dito na hora errada vira recado.

LIMITAÇÃO

E foi justamente o timing que transformou o episódio trivial em crise desnecessária. Tony ainda não ocupa a cadeira principal, não carrega a caneta nem o peso formal do cargo. Enquanto a renúncia de Fúria não for consumada, segue vice - com todas as limitações institucionais que o cargo impõe, por mais que a retórica tente antecipar uma autoridade que ainda não existe.

PROTOCOLO

Ao cutucar o aliado antes da hora, Tony errou menos no conteúdo e mais na encenação. Criou um problema onde havia apenas protocolo. Na política, não basta estar certo - é preciso saber quando parecer certo.

LASTRO

Há também um traço de personalidade que ajuda a entender o tropeço. Tony Pablo é vaidoso, construiu liderança respeitável no meio jurídico de Cacoal, mas na arena partidária sempre orbitou como coadjuvante. Nunca conseguiu, de fato, reunir musculatura para um voo solo consistente. E talvez aí esteja a explicação: política não funciona como assembleia de classe. Ali, deslize vira sentença. Quem se antecipa sem lastro costuma pagar a conta.

EXAGERO

Desta vez, não foi só um passo em falso - foi um salto no escuro. Tony não apenas meteu os pés pelas mãos, exagerou na dose e expôs uma ansiedade que a política costuma punir com frieza. Esqueceu que o tabuleiro tem mais peças do que sua vontade.

DESMONTE

E há um detalhe nada desprezível: na hipótese de Fúria não seguir no jogo, existe alternativa. O deputado estadual Cássio Góis surge como nome viável e, no confronto direto, pode impor dificuldades reais no futuro próximo. No mano a mano, Tony corre o risco de descobrir que capital político não se presume - se mede. E, quando mal calibrado, desmonta rápido, levando junto a pose e a pretensa autoridade. Tony Pablo é de fato uma pessoa boa, firme e repete exaustivamente que não vive de política. E é verdade, o que esconde é o ego. Há quem garanta que ele e Fúria vivem as turras e se acertam na mesma medida que brigaram. A ver.

LOROTA

Não passa de especulação pré-eleitoral a indicação do empresário Márcio Barreto para uma composição de chapa com a pré-candidato a governador Marcos Rogério. O empresário vem a ser o tio do prefeito da capital, Léo Moraes. O acordo sequer foi posto em discussão, embora o empresário possua as qualidades para compor uma chapa majoritária ao Governo de Rondônia. Em contato com a coluna o prefeito adiantou que a princípio o PODEMOS tem candidatura própria a governador. 

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