RESENHA POLÍTICA

Marcos Rocha não cogitou sair, Fera ataca jornalistas e Confúcio Moura admite a verdade

Movimentos calculados, reações agressivas e pedidos de desculpas em reservado expõem o imponderável da política e a memória do eleitor
Robson Oliveira
Marcos Rocha não cogitou sair, Fera ataca jornalistas e Confúcio Moura admite a verdade

ALE TUDO

A política rondoniense viveu, nas últimas semanas, um daqueles momentos em que a liturgia do cargo dá lugar ao vale-tudo eleitoral. O fechamento da chamada “janela partidária” - essa fresta legal que permite a deputados mudarem de sigla sem o risco de perder o mandato - escancarou mais do que simples rearranjos ideológicos: revelou o grau de pragmatismo, oportunismo e, em muitos casos, traição que marca a formação das nominatas para a Câmara Federal.

JOGO SUJO

Nos bastidores, dirigentes partidários foram submetidos a um teste de sobrevivência. Montar chapas competitivas exigiu mais do que articulação política: foi preciso “jogo de cintura” para acomodar egos inflados, “jogo de planilha” para distribuir promessas de fundo eleitoral e “jogo sujo” para rifar antigos aliados em nome de nomes considerados mais viáveis eleitoralmente. A coerência partidária, como de costume, foi tratada como detalhe dispensável.

IMPONDERÁVEL

A lógica que prevaleceu foi simples: quem tem voto - ou aparenta ter - vira prioridade. Nesse processo, deputados trocaram de partido como quem troca de camisa, alguns renegando discursos que os elegeram, outros abandonando bases políticas construídas ao longo de anos. Tudo em nome de uma matemática eleitoral que, na teoria, maximiza as chances de sobrevivência nas urnas. Mas há um detalhe que escapa às planilhas: o eleitor. Ele é o imponderável.

MEMÓRIA CURTA

Embora todos os movimentos tenham sido calculados com base em coeficiente eleitoral, divisão de recursos do fundo partidário e espaços em eventuais governos, há um fator imponderável que costuma cobrar seu preço - a memória (ainda que curta) do eleitorado. Muitos dos atuais parlamentares podem descobrir, da forma mais dura, que não basta estar bem posicionado em uma nominata robusta. É preciso ter entregado resultado.

CONTA ABERTA

Em Rondônia, cresce a percepção de que boa parte da bancada federal produziu mandatos aquém das expectativas. A atuação discreta - para não dizer irrelevante - de muitos deputados contrasta com a intensa movimentação de bastidores para garantir a reeleição. A conta pode não fechar.

EM DESCOMPASSO

Há, inclusive, quem aposte que, dos atuais representantes na Câmara Federal, apenas dois consigam retornar. Um número que, se confirmado, não será fruto de erro de engenharia eleitoral, mas sim de desempenho político insuficiente. Afinal, o eleitor pode até não acompanhar os detalhes da dança partidária, mas reconhece quando o mandato não se traduz em benefícios concretos.

LINHA TÊNUE

No fim das contas, a janela partidária, que deveria ser um instrumento de ajuste democrático, acabou funcionando como vitrine de um sistema em que lealdade é moeda fraca e conveniência é regra. Resta saber se, diante desse espetáculo, o eleitor será mero espectador - ou protagonista de uma renovação que muitos, nos bastidores, fingem não temer, mas claramente tentam evitar.

JANELA DA LÁBIA

Os dirigentes partidários, mestres da lábia, fizeram as contas que os pré-candidatos queriam ouvir para se filiarem mesmo sabendo que as duas ou três vagas prometidas de deputado federal ainda é um mera aritmética feita como miragem para ludibriar os incautos. Com a janela fechada, exigir agora que os compromi$$os firmados sejam cumpridos: eis a questão...

CENÁRIO INCERTO

Como esta coluna cravou, à exaustão, desde o ano passado, o governador Marcos Rocha jamais cogitou renunciar ao mandato para disputar o Senado (após a traição do vice-governador). Não por falta de estímulo, mas por cálculo político, daqueles que dispensam bravatas e priorizam o controle do jogo. As razões foram devidamente fundamentadas por este escriba da cabeça chata, embora muitos tenham preferido a conveniência da ilusão. Restou aos irmãos Gonçalves apostar num cenário que nunca existiu fora das especulações de bastidores.

PECHA IMPLACÁVEL

Ao vice-governador, Sérgio Gonçalves, coube o pior desfecho: revelou-se um político inábil, movido por uma ambição desmesurada e, sobretudo, precoce. Ao romper de forma desnecessária com quem lhe estendeu a mão, encurtou a própria trajetória. Em poucos meses, caminha para o retorno ao anonimato político, com reduzidas chances de reabilitação. Carrega agora na testa a pecha de traidor, um rótulo que, na política, costuma ser permanente e implacável.

QUALIDADES VALIOSAS

Já o irmão, Júnior Gonçalves, embora tenha contribuído para a derrocada do vice, demonstra possuir mais talento para o jogo político. Tem histórico de articulação, sobretudo quando não atua movido pelo fígado. É simpático, inteligente e perspicaz, qualidades que, em uma campanha, são valiosas para fortalecer protagonistas.

ERROS FATAIS

O problema surge quando Junior confunde seu papel: não é, e dificilmente será, o protagonista da história. Se compreender que seu lugar é como coadjuvante qualificado, poderá ser útil, inclusive ao União Brasil. Caso contrário, corre o risco de repetir o mesmo erro que ajudou a afundar o irmão. Nos bastidores ele ajuda muito mais numa eleição do que marmanjos que perambulam em todas as campanhas em busca de uma sombra confortável as próprias ambições.

REGISTRO

Na política, a palavra dita em público costuma pesar menos do que a sussurrada em privado - ainda que devesse ser o inverso. O episódio envolvendo Confúcio Moura ilustra bem essa inversão de valores que, vez ou outra, insiste em se impor como regra.

VERDADE

Havia, de minha parte, um texto pronto. Duro, detalhado, com o bisturi afiado que certas circunstâncias exigem. Não por impulso, mas por ofício - quando o fato pede clareza, o silêncio costuma ser cúmplice. Reafirmo, sem rodeios, o conteúdo que o motivou: a informação publicada era verdadeira. Tanto que, em reservado, o próprio senador reconheceu sua procedência e apresentou suas desculpas.

FIM DE PAPO

Diante disso, faço o movimento que a serenidade recomenda: encerro a querela. O texto, que poderia tensionar ainda mais o ambiente, fica na gaveta. Não por falta de convicção, mas por escolha. Resta, contudo, um ponto que não se dissipa com a discrição de um pedido privado. A palavra pública, quando utilizada para desqualificar, também exige reparação pública. O gesto reservado ameniza, mas não apaga. Alivia o desconforto pessoal, mas não corrige o ruído coletivo.

SUPERAÇÃO

Fica, portanto, o registro sem estridência: a controvérsia está superada no plano pessoal, mas ainda carece de um desfecho à altura no espaço onde começou. Afinal, na vida pública, não basta estar certo - é preciso também parecer justo.

INTOLERÂNCIA

O episódio envolvendo o deputado federal Rafael Fera expõe, mais uma vez, o limite tênue entre o exercício do mandato e o respeito às instituições - entre elas, a imprensa. Não se justifica que um agente público, investido de mandato popular, reaja com agressividade a críticas, ainda que as considere excessivas ou injustas. O caminho institucional é outro: o direito de resposta e o pedido de retratação existem exatamente para isso, e funcionam. Ao partir para o confronto pessoal, o parlamentar fragiliza sua própria posição e desloca o debate do campo político para o terreno da intolerância.

ARMAÇÃO

Por outro lado, é inegável que sua situação jurídica do deputado desperta interesse público e, portanto, deve ser objeto de escrutínio jornalístico. Ao se colocar novamente como candidato, Fera se submete naturalmente ao crivo da opinião pública. Sua condição atual de inelegibilidade, embora real, não é definitiva. Há elementos jurídicos que sustentam a possibilidade de reversão, especialmente diante da reavaliação feita pela própria Câmara Municipal que anteriormente o cassou, reconhecendo ilegalidades no processo. Na época esta coluna apontou que o processo de cassação era uma armação dos adversários. E foi.

HOSTILIDADE

Esse histórico reforça a tese de que houve, no passado, uso político de instrumentos institucionais para conter um adversário incômodo. Ainda assim, a eventual injustiça sofrida não autoriza o deputado a atacar jornalistas que apenas cumprem seu papel. A crítica à imprensa não pode se confundir com intimidação. Se há erro, que se corrija pelos meios legais. Se há perseguição, que se prove nos autos. O que não cabe é transformar divergência em hostilidade.

INJUSTIÇA

No fim, Fera pode reverter sua inelegibilidade - e há sinais de que isso é plausível depois que o TJ arquivou uma ação sobre os mesmos fatos por perda de objeto-, mas sua credibilidade política dependerá também da forma como lida com o contraditório. Em democracia, força não é sinônimo de razão. Embora a Justiça Eleitoral tenha seus próprios ritos, a situação jurídica de Rafael Fera é na ótica deste cabeça chata de uma injustiça que saltam aos olhos. A cassação foi armação.

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