Silvia Cristina e o eco das alianças que se moldam ao sabor da conveniência do momento
A presidente estadual do Progressistas em Rondônia, Silvia Cristina, parece ter decidido abandonar qualquer preocupação com as aparências.
Nos últimos dias, sua agenda política passou a chamar atenção não apenas pelo que faz, mas principalmente por onde faz.
Enquanto preside em Rondônia um dos principais partidos, Silvia tem sido vista participando de lançamentos e atos políticos de candidatos ligados a partidos rivais e a grupos que fazem oposição aos aliados naturais de sua própria legenda.
A pergunta inevitável é: qual projeto político Silvia realmente representa hoje?
Seu lançamento de pré-candidatura ao Senado já havia provocado estranheza, pois contou com a presença de um pré-candidato ao Governo pertencente ao campo político adversário.
Agora, a sequência de participações em eventos promovidos por partidos concorrentes amplia a percepção de que a presidente estadual do PP caminha em direção distinta daquela esperada de quem conduz uma legenda.
Registros recentes mostram Silvia em cena - inclusive em abraços e cumprimentos de palco - durante o lançamento de pré-candidatura de um nome identificado com o campo bolsonarista do estado, embora a sigla de centro-direita abriga uma forte ala ao ex-presidente e outra de caráter pragmático.
Silvia construiu sua trajetória iniciando a vida pública no PDT. Ao longo dos anos, migrou para um campo político mais à direita e, agora, passa a ser vista dividindo palanque com grupos que, em muitos casos, caminham em sentido diverso da própria federação partidária.
Mais do que uma mudança ideológica, o que chama atenção é a sucessão de sinais políticos.
Nicolau Maquiavel, em “ O Príncipe”, escrito há mais de cinco séculos, já alertava que os governantes bem-sucedidos não são necessariamente os mais leais, mas os mais hábeis em administrar a fortuna - a instabilidade das circunstâncias - a seu favor.
Para o florentino, a política não se sustenta em afetos permanentes, mas em interesses que se movem conforme o tabuleiro se movimenta.
Não seria essa, talvez, a lógica que orienta os últimos passos de Silvia Cristina?
Há uma passagem específica de Maquiavel que parece dialogar diretamente com o momento atual do PP em Rondônia: o autor observa que quem um dia ajudou a enfraquecer ou abandonar um campo político tende a repetir o movimento sempre que a conveniência se apresentar novamente. Silvia já trocou de legenda antes.
Estaria ela apenas repetindo um padrão de comportamento já conhecido, ou seria precipitado enxergar nisso uma regra?
Maquiavel também descreve o governante ideal como alguém que precisa reunir duas naturezas: a força do leão e a astúcia da raposa.
A raposa não rompe abertamente - ela transita, se adapta, evita o confronto direto enquanto reposiciona suas alianças.
Presidir uma federação e, ao mesmo tempo, prestigiar publicamente adversários dela é romper sem declarar ruptura? Ou é apenas prudência, no sentido maquiaveliano, diante de um cenário eleitoral ainda incerto?
Outro princípio central da obra é a separação entre parecer e ser. Para Maquiavel, o governante não precisa necessariamente ser fiel - precisa parecer fiel, na medida em que isso lhe for útil.
Sob essa ótica, a presença de Silvia em atos rivais não seria, em si, uma confissão de deslealdade, mas talvez um sinal de que a aparência de unidade partidária já não é mais o ativo político mais valioso para ela neste momento. Ou será apenas isso mesmo que parece: uma aliada testando a paciência dos seus?
Há ainda uma leitura maquiaveliana que talvez explique melhor a sequência de movimentos do que qualquer rótulo ideológico.
Um dos princípios mais conhecidos - e mais controversos - de “O Príncipe” é o de que o governante deve ser julgado pelos resultados que alcança, não pelos meios que utiliza para chegar até eles.
Nessa lógica, a identidade partidária deixa de ser o centro da estratégia e passa a ser apenas um instrumento entre outros.
Se o objetivo é a projeção pessoal ao Senado, talvez pouco importe, nesse cálculo, se o palco é do PP, de um aliado histórico ou de um adversário declarado da própria federação - o que importaria seria apenas o alcance, o palanque, o eleitor conquistado.
Seria essa a chave de leitura para entender por que Silvia parece transitar com a mesma naturalidade entre campos que, em tese, deveriam ser opostos?
Há ainda uma leitura possível - e talvez a mais desconfortável para quem observa de fora.
É a de que o que parece guiar os passos recentes de Silvia não seria a fidelidade a este ou aquele campo, mas um cálculo mais frio: o partido, o palanque e o aliado de ocasião importariam menos do que o destino final que ela persegue.
Nessa chave, cada palco dividido - seja com adversário histórico, seja com quem quer que esteja em ascensão no momento - funcionaria menos como aproximação ideológica e mais como peça útil num tabuleiro cujo único ponto fixo seria o próprio objetivo pessoal. Se essa leitura procede, não cabe a este texto afirmar - cabe ao leitor.
Não há, até aqui, qualquer declaração pública de Silvia Cristina anunciando ruptura com o PP ou com a federação que preside. Os fatos verificáveis são os registros de presença, os palcos compartilhados e a trajetória migrante que ela mesma construiu ao longo dos anos.
O que se pode dizer com segurança é limitado; o que se pode perguntar, não.
Resta ao leitor - e, em breve, aos próprios correligionários - decidir se está diante de uma estrategista movendo peças com antecedência, ou de uma dirigente partidária cuja lealdade já não encontra mais endereço fixo.