Máximo ressuscita promessa do João Paulo II, Ezequiel complica o PL e debate esquenta corrida ao Senado
GENIALIDADE
Ou o marketing do candidato ao Senado Fernando Máximo, do PL, é comandado por algum gênio que trabalha com fórmulas ainda desconhecidas pela ciência política, ou alguém decidiu ressuscitar justamente o assunto que pode se transformar no calcanhar de Aquiles da candidatura.
ENGODO
Máximo voltou a prometer a construção do Hospital João Paulo II. A mesma promessa, com nova embalagem e o mesmo conteúdo. Só faltou mudar a etiqueta. O problema é que o candidato não está falando de uma obra qualquer. O episódio do chamado Euro é parte de sua própria biografia administrativa. Foi durante sua passagem pela Secretaria de Estado da Saúde que ocorreu toda a trapalhada envolvendo a escolha de uma empresa sem lastro financeiro para executar o projeto.
JUDAS
Houve leilão, viagem a São Paulo com uma comitiva de aduladores para bater palmas na Bolsa de Valores, pedra fundamental, solenidade, fotografias, discursos, lágrimas e a liturgia completa de uma obra que parecia existir apenas para produzir palanque. Tudo publicado nas mídias e ainda disponíveis. Seria a grande obra do governo opaco de Marcos Rocha que Fernando Máximo, assim como fez ao se apropriara do Regina Passos, pretendia se apropriara. Agora, nega a própria obra.
LOROTA
A obra, porém, não saiu do chão. Sobrou a pedra. E ficou a promessa. Fernando Máximo pode tentar se desvincular da responsabilidade, atribuindo a lorota ao governador Marcos Rocha. Politicamente, entretanto, a conta não desaparece porque o candidato mudou de endereço eleitoral. Como secretário de Estado da Saúde, a responsabilidade técnica e administrativa pela condução da política de saúde era dele. Não era um visitante de passagem pelo gabinete.
ALQUIMIA
Mais curioso ainda é observar a metamorfose do discurso. Máximo foi alçado à política pelo mesmo governo do coronel que hoje baixa o cacete. Enquanto esteve ao lado de Rocha, o discurso era um. Depois que atravessou a rua, descobriu que os problemas que antes ajudava a administrar passaram a ter outro culpado. A política tem dessas alquimias: muda-se de lado e, milagrosamente, muda-se também a versão dos fatos.
PERCEPÇÃO
Prometer novamente o João Paulo II, portanto, não parece apenas uma proposta de campanha. Nos meios políticos, começa a soar como uma provocação à memória do eleitor. Um insulto a quem precisa de um atendimento mínimo e uma demogogia eleitoral. Não há outra percepção.
SUBESTIMANDO
A menos, evidentemente, que o marketing de Fernando Máximo tenha chegado à conclusão extraordinária de que o eleitor de Rondônia sofre de amnésia eleitoral. Se for essa a estratégia, há um pequeno inconveniente: hospital pode até ser prometido duas vezes. Mas uma obra que não saiu da promessa deixa uma marca que campanha nenhuma consegue apagar com santinho, vídeo ou discurso. No fim, o candidato corre o risco de fazer campanha para o Senado carregando não uma bandeira, mas a própria pedra fundamental da promessa anterior.
FICHA SUJA
A decisão unânime do TRE que barrou o registro de Ezequiel Neiva para deputado federal caiu como uma bomba no colo do PL. O parlamentar pode recorrer, e seus advogados certamente cumprirão a liturgia do processo, alimentando alguma esperança. Mas unanimidade em tribunal não costuma ser terreno fértil para milagres jurídicos.
SANGRIA
Inelegibilidade, em campanha eleitoral, é uma espécie de sangria lenta: quando se percebe, já levou quase todo o sangue da candidatura. Ezequiel ainda pode lutar, mas entra na disputa com a ficha suja estampada na testa.
CONTORNOS
Para o PL, oproblema é maior que o candidato. A legenda contava internamente com uma nominata capaz de fazer três federais. Sem Ezequiel, essa conta ficou subitamente mais parecida com aquelas promessas de campanha que nunca chegam ao caixa. A disputa agora tende a ganhar contornos fratricidas. Não será exatamente uma guerra contra adversários, mas uma corrida entre companheiros pelo mesmo pedaço de oxigênio eleitoral. Na lista estão dois deputados com mandato: Lúcio Mosquini e coronel Chrisóstomo.
NERVOS
E, neste momento, o coronel aparece como o elo mais vulnerável da corrente. JÁ Mosquini conhece os atalhos de Brasília e a matemática eleitoral. Chrisóstomo terá de provar que ainda tem musculatura suficiente para sobreviver à navalha da própria nominata. Com Ezequiel fora da pista, cada voto passa a valer mais e cada aliado passa a valer menos. A matemática que antes prometia três cadeiras agora exige contas de padeiro e nervos de aço.
SOBREVIVÊNCIA
O PL ainda pode eleger três? Pode. Mas terá primeiro de sobreviver à seleção natural que se instalou dentro de casa. E, quando companheiro vira concorrente, até o abraço de campanha pode esconder um cotovelo. A eleição, como se sabe, é a arte de transformar aliados em adversários com santinhos no bolso.
DEBATE
O debate promovido pelo CREA de Rondônia entre os candidatos ao Senado, ontem, na capital, foi o primeiro confronto desse tipo e, apesar dos conhecidos problemas técnicos e de regras inconsistentes, não repetiu o desastre do debate para governador. Os candidatos apresentaram propostas, foram firmes e, pelo menos desta vez, foi possível compreender o que cada um pensa. Pena que o confronto direto, justamente o bloco que mais interessa ao eleitor, tenha sido subtraído pela tirania do relógio.
FORMATO
As emissoras continuam copiando formatos engessados, importados sabe-se lá de onde, que amarram candidatos a temas genéricos, muitas vezes sem qualquer relação objetiva com o cargo em disputa. O resultado é uma avenida aberta para a divagação: fala-se muito, responde-se pouco e chega-se a lugar nenhum. Debate deveria ser confronto, não concurso de redação política. Insistir num formato tosco é idiotice.
CARA A CARA
O confronto direto em todos os blocos deveria ser a regra, porque obriga o candidato a dizer o que realmente pensa e o que pretende fazer se eleito. É nesse choque que o eleitor percebe quem tem conteúdo, quem domina os assuntos e quem apenas empilha palavras bonitas. Melhor ainda: é no embate que aparecem as contradições, as incoerências e os improvisos de quem se preparou apenas para parecer preparado. Debate não pode nem deve ter tantas amarras.
AUDIÊNCIA
Essas regras burocráticas não melhoram o espetáculo, derrubam a audiência e, no fim, parecem servir mais à produção de cortes para as redes sociais do que ao eleitor que está diante da televisão tentando decidir seu voto. Menos manual de instruções, portanto. Mais confronto. A democracia agradece, e o eleitor também. O ponto mais quente foi o confronto de posições entre o candidato Bruno Bolsonaro do PL e a candidata Luciana Oliveira do PT. Um encarou de frente o outro.
DESEMPENHO
O debate entre os candidatos ao Senado, realizado ontem na capital, apesar das amarras e de algumas regras pouco inteligentes, acabou sendo proveitoso e revelou diferenças importantes entre os concorrentes. Mariana Carvalho, do Republicanos, apareceu bem diferente daquela candidata da eleição passada, quando perdeu muito por erros próprios. Mais serena, menos arrogante e mais centrada, teve um desempenho seguro e parece ter aprendido com a derrota. Neidinha Suruí, com seu habitual despojamento, não poupou os adversários que prometem muito e entregam pouco. Partiu para cima de Fernando Máximo, cobrando sua atuação na saúde indígena quando esteve na Sesau, e também questionou a promessa de melhorias para o João Paulo II.
PROPOSTAS
Luís Fernando, do PSD, foi eloquente e bem articulado, mas continua com sua postura professoral e tecnicista. Em alguns momentos, parece mais expositor de uma aula do que candidato pedindo voto. Sílvia Cristina enumerou seus feitos na saúde, especialmente no Hospital do Amor, e fez uma promessa inédita: dedicar o primeiro ano do mandato no Senado a carrear recursos para o João Paulo II. Lembrou ainda que quatro hospitais do interior foram construídos com suas emendas e prometeu ao prefeito Léo Moraes fazer pela capital. Aires Mota, do Verde, pouco conhecido do eleitorado, surpreendeu pela habilidade de cutucar os adversários sem elevar o tom.
CONFRONTO
Mas o ponto alto, e mais quente, foi o embate entre Bruno Bolsonaro e Luciana Oliveira, do PT. Ali o pau cantou. Entre provocações, cobranças e respostas duras, finalmente apareceu o confronto que se espera de uma campanha eleitoral. Com todos os defeitos do formato, foi um debate que serviu para alguma coisa.
DESDOBRAMENTO
Engana-se quem achar que está operação policial que investiga malfeitos na prefeitura de Nova Mamoré é algo isolado. Os desdobramentos vão alcançar quem está ainda oculto. E tentáculos que vão longe.