RESENHA POLÍTICA

Confúcio joga a toalha, Pedro Adib fica órfão no MDB e Ezequiel Neiva sangra sob incerteza jurídica

Desistência do senador redesenha o cenário eleitoral, fragiliza a candidatura de Pedro Adib no MDB e amplia as dúvidas sobre a elegibilidade de Ezequiel Neiva.
Robson Oliveira
Confúcio joga a toalha, Pedro Adib fica órfão no MDB e Ezequiel Neiva sangra sob incerteza jurídica

CRAVEI

A política brasileira cultiva um hábito antigo: negar hoje o que amanhã será anunciado como decisão estratégica. Em março, esta coluna revelou, após uma conversa com o senador Confúcio Moura, que ele não disputaria a reeleição. O próprio senador relatou o cansaço de décadas na vida pública e disse que pretendia dedicar mais tempo à esposa. A reação veio rápida. Sua assessoria tratou de desmentir a informação, numa tentativa de transformar o mensageiro em mentiroso.

ANTECIPADO

Foi preciso tornar públicas as mensagens recebidas para demonstrar que a informação era verdadeira. Depois disso, restou o silêncio. O tempo, esse juiz implacável da política, acabou fazendo o restante do trabalho. Na manhã desta sexta-feira, o celular deste escriba amanheceu tomado por mensagens. “Você acertou em cheio.” “Confúcio jogou a toalha.” “Uma fonte do MDB confirmou que ele desistiu.” A notícia apenas confirmou aquilo que esta coluna havia antecipado meses atrás.

DISSIMULADO

Lembrei-me, então, de uma conversa ocorrida há mais de vinte anos com uma prefeita do MDB do interior rondoniense. Ela fez uma observação sobre o estilo político de Confúcio Moura que, à época, considerei excessivamente severa. Preferi atribuí-la às cicatrizes naturais da política. O tempo passou, vieram novas campanhas, novos episódios e novas experiências.

DESCOMPASSO

Hoje, olhando para a sucessão de acontecimentos, compreendo melhor por que aquela avaliação foi feita. Não cabe a este colunista julgar o caráter de ninguém. Cabe apenas registrar que, em diversas ocasiões, percebi uma distância entre conversas reservadas e posicionamentos públicos. O leitor é quem deve formar sua própria convicção.

REALIDADE

Votei em Confúcio para governador e trabalhei por sua eleição uma única vez . Não me arrependo daquela escolha. Entre ele e João Cahulla, parecia a melhor alternativa. Mas bastaram poucos meses de governo para perceber que o político no exercício do poder já não era exatamente o mesmo candidato que conheci durante a campanha, dividindo voos em uma aeronave velha pelos céus de Rondônia.

SUCESSO

Na eleição seguinte, estive do outro lado da trincheira. Ele venceu novamente numa disputa apertadíssima e vencida com o apoio velado dos petistas. Como governador e, depois, senador, transformou seu blog numa leitura obrigatória para jornalistas. Escrevia bem, dominava a ironia, produzia textos inteligentes e frequentemente explosivos. Era um sucesso editorial. O problema surgiu quando abandonou a escrita para trocar o teclado pela câmera do celular.

INFLEXÃO

Nas redes sociais, a ironia perdeu o refinamento do texto e ganhou o peso das imagens. O vídeo sobre a BR-364, recheado de críticas e frases que repercutiram muito além do que talvez imaginasse, marcou um ponto de inflexão. Ali, sua comunicação passou a produzir mais desgaste do que admiração.

TIMING

Foi nesse momento que esta coluna escreveu que começava a morte política do senador. Houve nova ironia, novos desmentidos indiretos e a crença de que bastaria o talento retórico para vencer a realidade. Mas a política, diferentemente da literatura, não admite revisões depois que o livro vai para a gráfica.

DESGASTE

Confúcio Moura foi um político vencedor. Governou Rondônia por dois mandatos, chegou ao Senado e ocupou espaço relevante na história recente do Estado. Seria injusto reduzir sua trajetória aos episódios finais. Também seria um equívoco ignorar que os últimos capítulos acabaram desbotando parte de um legado construído ao longo de décadas.

RENOVAÇÃO

Sua saída da disputa pelo Senado redesenha completamente o cenário eleitoral. Candidaturas que pareciam sufocadas pela força de um ex-governador ganham oxigênio. Talvez seja a oportunidade para que o eleitor rondoniense olhe além dos sobrenomes tradicionais e permita que novas lideranças ocupem espaço. Renovar não significa escolher aventureiros; significa reconhecer que nenhuma democracia evolui vivendo eternamente das mesmas figuras.

MELANCOLIA

No fim das contas, Confúcio fez o que talvez devesse ter feito meses atrás: reconheceu os limites do momento político. Jogou a toalha antes que a campanha a transformasse em pano de chão. Foi uma despedida melancólica para quem tantas vezes venceu eleições com autoridade, mas também um gesto que evita um desfecho ainda mais amargo.

TEMPO

Como ensinava Ulysses Guimarães, a política é uma arte de circunstâncias. E, às vezes, a maior demonstração de experiência não está em insistir na batalha, mas em perceber que chegou a hora de deixar a cena. O tempo dirá como a história registrará Confúcio Moura. A política, porém, já começou a escrever um novo capítulo sem ele. E o esquecimento tem sido cruel com os ex. Confúcio Moura entra em meses sabáticos e terá tempo para avaliar os erros. O celular, nesta fase, começa a parar de tocar e o café do gabinete é servido frio. O tempo é o senhor da razão, diz o adágio.

EFEITO

A desistência de Confúcio Moura produziu um efeito colateral imediato dentro do MDB: lançou a candidatura de Pedro Adib à condição de paciente em estado terminal. A convenção partidária apostou na tese de candidatura própria, mas o projeto tinha um alicerce evidente. Confúcio era o fiador político, o nome capaz de unificar o partido e emprestar musculatura eleitoral à chapa. Sem ele, resta apenas a casca.

REVOADA

Nos bastidores, emedebistas históricos já procuram um responsável pelo naufrágio anunciado e o dedo aponta justamente para Pedro Adib, visto por muitos como a pedra no caminho que acabou aprofundando a crise interna. O partido revive um roteiro conhecido. Em outras eleições insistiu em candidaturas sem densidade popular e terminou reduzido a espectador da própria derrota. Haverá uma revoada em direção aos outros candidatos.

INGÊNUO

Pedro, que nunca construiu uma trajetória orgânica dentro do MDB, aceitou a missão acreditando que seria impulsionado pelos próceres da legenda. O cenário mudou radicalmente. Sem Confúcio na linha de frente, a estrutura partidária tende a perder o entusiasmo, e uma candidatura sem sustentação política dificilmente sobrevive apenas à força da vontade.

ISOLADO

Se insistir na disputa, corre o risco de enfrentar o isolamento. Os veteranos do MDB podem até manter a liturgia da lealdade, mas campanha se faz com empenho, estrutura e convencimento - três ativos que hoje parecem escassear. Aos poucos, o candidato poderá sentir o peso de caminhar praticamente sozinho, enquanto os caciques direcionam suas energias para a própria sobrevivência eleitoral.

ORFÃO

Independentemente dos desdobramentos até outubro, o MDB já contabiliza uma derrota política antes mesmo da abertura das urnas. O partido que sonhava protagonizar a sucessão estadual agora transmite a imagem de uma legenda sem rumo, dividida e órfã de sua principal liderança.

NATIMORTA

A candidatura de Pedro Adib, que nasceu cercada de expectativas, hoje mais parece um projeto sustentado por um capricho pessoal e pelo entusiasmo de alguns noviços da legenda. Em política, há candidaturas que morrem nas urnas. Outras, infelizmente, já nascem sem fôlego.

RETORNO

Também não convém duvidar da possibilidade de Confúcio Moura desistir da própria desistência. Não seria a primeira vez que recorre ao blefe como instrumento político para tentar alcançar seus objetivos. A diferença é que, na era da internet, apagar declarações, desmentidos e recuos tornou-se praticamente impossível. O que antes se perdia na memória, hoje permanece eternizado em vídeos, prints e entrevistas.

 IGNOREI

Ontem, seu primeiro suplente, Paulo Andrade, telefonou a esta coluna para relatar a conversa que manteve com Confúcio. Segundo ele, o senador havia confirmado que realmente deixaria a disputa. O relato pareceu categórico. Ainda assim, quem acompanha a política há algum tempo sabe que, quando o blefe se transforma em fato e a dissimulação em estratégia, a palavra perde valor. Optei, devido antecedentes, memorizar a informação e não repassá-la nas minhas mídias. Confúcio não merecia tanta deferência de quem um dia ousou enganar.

BLEFE

Por isso, não causará surpresa se Confúcio voltar atrás mais uma vez – tem até o dia 5 para retornar. Mas, independentemente do próximo movimento, o desgaste já foi produzido. Um blefe mal calculado costuma ser a receita perfeita para o desastre. E, desta vez, o estrago parece difícil de reparar.

CRITÉRIOS

A situação jurídica do deputado estadual Ezequiel Neiva talvez seja uma das primeiras, em Rondônia, a colocar à prova a nova interpretação do Supremo Tribunal Federal sobre a Lei da Improbidade Administrativa e seus reflexos na inelegibilidade. O STF passou a exigir critérios objetivos para afastar candidaturas, não bastando mais uma condenação por improbidade.

DIVERGÊNCIA

A decisão deve demonstrar, de forma expressa, os requisitos previstos na legislação, entre eles a existência de dano ao erário e enriquecimento ilícito. Na avaliação de advogados eleitoralistas ouvidos pela coluna, há espaço para interpretações divergentes.

PROCRASTINAÇÃO

No Tribunal Regional Eleitoral, onde tradicionalmente prevalece uma leitura mais restritiva da legislação, o cenário é considerado mais delicado. Já no Tribunal Superior Eleitoral, a tendência seria de uma análise mais ampla à luz da jurisprudência recente do Supremo. O grande problema é o tempo.

SANGRANDO

Ainda que eventual recurso ao TSE tenha em tese boas perspectivas, até seu julgamento o deputado poderá atravessar toda a campanha sob a sombra da dúvida, obrigado a responder diariamente sobre a própria elegibilidade. Em outras palavras, sua candidatura poderá existir, mas cercada de insegurança jurídica.

CONVENCIONAIS

A capital tem um sábado movimentado com a convenção do PSD que homologa a candidatura à Governo de Rondônia de Adailton Fúria, o segundo colocado nas pesquisas divulgadas em Rondônia com registro legal. Diversas caravanas do interior do estado começaram desembarca em Porto Velho ontem final da tarde. Pelo que deu para visualizar o evento vai ser bem movimentado na antiga Casa de shows Talismã, às 18 horas.  Antes do evento o candidato concede entrevista a este cabeça chata, apresentador do podcast Resenha Política.

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