RESENHA POLÍTICA

Fúria mostra força, Acir convive com insegurança jurídica e R$ 2 milhões agitam os bastidores

Convenções movimentam a pré-campanha, decisões judiciais mantêm incertezas sobre Acir Gurgacz e apreensão milionária alimenta especulações políticas em Rondônia
Robson Oliveira
Fúria mostra força, Acir convive com insegurança jurídica e R$ 2 milhões agitam os bastidores

CONVENÇÃO

A convenção estadual do PSD, realizada no último sábado, em Porto Velho, consolidou a candidatura de Adailton Fúria ao Governo de Rondônia e produziu, até aqui, uma das maiores demonstrações de mobilização política desta pré-campanha. A casa de eventos simplesmente ficou pequena para acomodar a multidão formada por militantes, simpatizantes, candidatos proporcionais, lideranças e apoiadores vindos de diversas regiões do Estado.

IMPACTO

Como era previsível, adversários tentaram minimizar o impacto da convenção, sustentando que boa parte do público seria formada por ocupantes de cargos comissionados. Faz parte do roteiro de toda disputa eleitoral: quando um lado reúne multidões, o outro procura desqualificar a plateia. É a chiadeira e o desdém típicos do jogo político.

LOTAÇÃO

O fato concreto, contudo, é que milhares de pessoas, ocupando cargos públicos ou não, lotaram o espaço e ovacionaram o candidato do PSD, num ambiente de entusiasmo que dificilmente pode ser ignorado por quem acompanha a sucessão estadual.

ALVO

A maior surpresa da noite ficou por conta da presença do governador Marcos Rocha. Alvo de críticas vindas de diferentes setores políticos ao longo de sua administração, Rocha subiu ao palco e declarou apoio à candidatura de Adailton Fúria, movimento que imediatamente passou a ocupar o centro das conversas políticas.

CONTINUISMO

Fúria tratou de afastar qualquer interpretação de que o apoio significaria um compromisso com a continuidade do atual governo. Disse receber de forma respeitosa toda manifestação de apoio, mas fez questão de reafirmar sua independência política. Embora na política cada vez mais você explica mais complica e a melhor tática é ignorar com o monitoramento das pesquisas. Elas que devem ser o guia interno da eleição.

CAPACIDADE

A convenção do PSD termina deixando um recado político claro: independentemente das críticas ou da tentativa dos adversários de reduzir seu significado, Adailton Fúria demonstrou capacidade de mobilização, reuniu uma expressiva plateia e saiu do evento com a candidatura fortalecida e no centro do debate eleitoral. O resto de lorota.

ANIMAÇÃO

Depois da demonstração de força do PSD, foi a vez de União Brasil e PP realizarem sua convenção. Sem a multidão vista em outros eventos, mas com militância mobilizada e um ambiente claramente favorável aos candidatos, o ato político lotou dois espaços do ginásio da UNOPAR e homologou as candidaturas de Hildon Chaves ao Governo de Rondônia e de Mariana Carvalho e Silvia Cristina ao Senado, além dos postulantes aos cargos proporcionais.

PORTFÓLIO

Se alguém esperava um discurso inflamado apenas contra adversários, Hildon preferiu seguir outro roteiro. Voltou a listar as obras realizadas durante seus dois mandatos à frente da Prefeitura de Porto Velho, relembrou as dificuldades encontradas ao assumir uma administração combalida e usou a própria experiência como cartão de visitas para convencer o eleitor de que está preparado para governar Rondônia.

EXPERIÊNCIA

O ex-prefeito também direcionou críticas à situação fiscal do Estado. Sem entrar em ataques pessoais, defendeu que o próximo governador precisará reunir capacidade administrativa e experiência para conduzir uma gestão compatível com as expectativas dos rondonienses. A mensagem foi clara: campanha se vence com discurso, mas governo se faz com gestão.

PROMESSA

Ao que tudo indica, esse será o principal eixo de sua estratégia eleitoral. Em vez de promessas mirabolantes, Hildon pretende vender experiência administrativa, lembrando que conseguiu reorganizar Porto Velho e entregar obras estruturantes. Como exemplo, citou a construção da nova rodoviária da capital, concluída em apenas um ano, e prometeu repetir a fórmula com a construção do novo HEURO, projeto que apresentou como uma de suas prioridades caso seja eleito.

MOEDA

Bem avaliado ao encerrar o mandato na Prefeitura, Hildon demonstrou confiança no resultado das urnas e afirmou que, nas próximas semanas, apresentará de forma detalhada seu plano de governo. A campanha começa a ganhar contornos mais nítidos: enquanto alguns apostam no discurso da renovação, o candidato de União Brasil e PP escolheu a experiência como seu principal ativo político. Agora caberá ao eleitor decidir se currículo continua sendo moeda forte numa eleição cada vez mais disputada.

LIMINARES

Antes vistas como improváveis, as duas liminares obtidas por Acir Gurgacz representam, sem dúvida, um alívio em uma longa travessia de derrotas judiciais. Primeiro veio a suspensão dos efeitos da condenação que lhe devolveu, provisoriamente, a elegibilidade.

TESE

Agora, uma nova decisão reforça esse entendimento ao reconhecer a plausibilidade da tese de nulidade da condenação por possível incompetência do STF para julgá-lo, já que os fatos ocorreram antes do mandato de senador e sem relação com a função parlamentar.

PROVISORIEDADE

É, porém, essencial separar o aspecto jurídico do político. As duas decisões são liminares, concedidas em caráter provisório, e não representam julgamento definitivo do mérito da revisão criminal. A condenação não foi anulada, nem houve absolvição. O que existe é a suspensão temporária de seus efeitos até que a Corte decida, em definitivo, se houve ou não nulidade no processo.

INSEGURANÇA

No plano judicial, Acir conquistou duas vitórias importantes, mas insuficientes para afastar a principal sombra sobre sua candidatura: a insegurança jurídica. Adversários certamente explorarão, à exaustão, a narrativa de que o eleitor pode votar em um candidato que, caso eleito, ainda corre o risco de perder o mandato se a revisão criminal for rejeitada. Em política, percepção muitas vezes pesa tanto quanto a realidade jurídica.

BRECHA

Depois de anos acumulando derrotas em sucessivos recursos, Acir finalmente encontrou uma brecha favorável no Supremo. Resta saber se essas vitórias cautelares serão o início de uma reviravolta ou apenas um breve intervalo antes da palavra final da Justiça. Até lá, sua campanha seguirá caminhando entre a esperança produzida pelas liminares e a incerteza de um julgamento que ainda está por vir. E este filme todos conhecem seu The End.

VÍTIMA

Enquanto muitos pré-candidatos transformam a disputa eleitoral em um festival de ataques e provocações, a deputada federal Sílvia Cristina segue por um caminho diferente. Pré-candidata ao Senado, percorre Rondônia com uma campanha leve, propositiva e colhendo os frutos de um trabalho construído ao longo dos últimos anos junto à maioria das administrações municipais.

DEDICAÇÃO

Sua trajetória política foi forjada na militância em defesa da saúde pública, área que continua sendo a maior angústia dos rondonienses. Em um estado onde hospitais vivem sob pressão, faltam especialistas e o atendimento ainda deixa muito a desejar para quem mais precisa, Sílvia conseguiu transformar essa bandeira em sua principal identidade política. Independentemente das preferências partidárias, até adversários costumam reconhecer a seriedade e a dedicação com que conduz esse trabalho.

DESQUALIFICAR

Talvez seja exatamente esse desempenho que explique o incômodo que sua candidatura provoca. À medida que cresce nas pesquisas e amplia sua presença no interior, multiplicam-se também os ataques pessoais, muitos deles sem qualquer relação com o debate de ideias ou de propostas. É o lado mais degradante da política: quando faltam argumentos, sobra a tentativa de desqualificar o adversário.

JOIO

Em vez de discutir projetos para Rondônia, há quem prefira investir na agressão, na insinuação e na desinformação. O eleitor, contudo, costuma separar o joio do trigo e sabe distinguir quem apresenta resultados de quem vive apenas da desconstrução alheia.

CONFIANÇA

Sílvia Cristina poderia ter escolhido o caminho mais confortável da reeleição à Câmara Federal, onde desponta como uma das parlamentares mais atuantes da bancada de Rondônia. Preferiu, entretanto, enfrentar uma das disputas mais difíceis da política brasileira: uma vaga ao Senado. É uma aposta de alto risco, mas que demonstra confiança no capital político acumulado ao longo dos mandatos.

FOCO

Os levantamentos eleitorais divulgados até aqui mostram que sua candidatura larga em posição competitiva. Ainda há uma longa estrada até as urnas e muita água passará por baixo da ponte. Justamente por isso, sua campanha precisará manter o foco nas propostas e redobrar a atenção diante do ambiente tóxico que costuma contaminar as disputas majoritárias.

SINAIS

Na política, o sucesso quase sempre desperta admiração, mas também atrai ressentimentos. E, quando uma candidatura começa a incomodar, é sinal de que deixou de ser apenas uma participante da corrida para se tornar uma competidora real.

A VIDA COMO ELA É

Nelson Rodrigues dizia que toda unanimidade é burra. Na política, a única unanimidade inteligente é outra: ninguém acredita que alguém saque R$ 2 milhões em dinheiro vivo para comprar pão, pagar o açougue ou quitar a prestação da geladeira. Até porque, se existisse limite de PIX para carregar mala de dinheiro, muita gente estaria protestando contra o Banco Central.

FORTUNA

A apreensão da fortuna pela Polícia Federal, logo após o saque numa agência bancária de Porto Velho, transformou a política rondoniense numa mistura de romance policial com comédia de costumes.

CAMPANA

A PF, ao que tudo indica, não foi passear na porta do banco. Esperou pacientemente o peixe morder a isca antes de puxar a linha. Quando veio o bote, dois seguranças resolveram homenagear o patrono das corridas de cem metros rasos e desapareceram do mapa numa velocidade que faria Usain Bolt pedir revisão do cronômetro.

ESPECULAÇÃO

Na política, porém, ninguém corre mais do que a fofoca. Antes mesmo que a tinta do auto de apreensão secasse, surgiram especialistas em malas de dinheiro, doutores em caixa de papelão e pós-graduados em adivinhação eleitoral. Nos bastidores, cada grupo aponta o dedo para o adversário com a segurança de quem viu tudo da janela, embora a maioria estivesse apenas olhando o WhatsApp.

JUSTIFICATIVA

O dinheiro, segundo a justificativa apresentada, destinava-se ao pagamento, em espécie, de uma obra. Perfeitamente possível. O curioso é que a obra continua mais misteriosa que o Santo Graal. Não se sabe qual é, onde fica, quem contratou, quem receberia nem por que precisava de uma pequena montanha de cédulas. Talvez a construção mais avançada, até agora, seja mesmo a da desconfiança.

INVESTIGANDO

É importante dizer - porque o Estado de Direito não pode ser substituído pelo tribunal das redes sociais - que não existe, até este momento, qualquer informação oficial sobre a quem pertence o dinheiro nem sobre eventual destinação eleitoral. As investigações seguem em curso, e isso separa o jornalismo sério da fábrica de boatos.

IMAGINAÇÃO

Mas convenhamos: eleição sem dinheiro suspeito é como romance de Machado de Assis sem ironia. Quando aparecem R$ 2 milhões em espécie, a imaginação da República entra em campanha antes dos candidatos. Os adversários começam a enxergar malas onde há mochilas, cofres onde há armários e conspiradores até na fila do cafezinho.

GRUPOS

Poucos grupos políticos ou econômicos em Rondônia possuem musculatura financeira capaz de movimentar uma quantia dessa envergadura em dinheiro vivo. É justamente por isso que a apreensão provocou um efeito colateral previsível: uma epidemia de insônia. Tem gente que nunca viu a mala, não conhece o dono, ignora a origem do dinheiro, mas acordou de madrugada para conferir se seu nome ainda não apareceu numa conversa de bastidor.

ESPETÁCULO

A Polícia Federal, por sua vez, faz o que dela se espera: investiga. Os políticos fazem o que também se espera deles: especulam. E o eleitor assiste ao espetáculo tentando descobrir quem está falando a verdade e quem apenas tenta empurrar a mala para o porta-malas do adversário.

SUSPENSE

Como ensinava Shakespeare, "há mais mistérios entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia". Em Rondônia, às vezes, há também alguns milhões entre o banco e o destino final. E descobrir para onde essa fortuna estava realmente viajando talvez seja o primeiro grande suspense desta temporada eleitoral.

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