Denúncia cita Alex Redano, Laerte Gomes e Jean Oliveira; artigo questiona legado de Fernando Máximo
ENGRENAGEM
Há escândalos que rendem apenas manchetes passageiras. Outros deixam marcas profundas na história das instituições. A denúncia que tramitava sob sigilo desde 2023 e somente agora veio a público pertence à segunda categoria. Seu conteúdo, segundo a acusação, revela uma engrenagem complexa montada no interior da Assembleia Legislativa de Rondônia para influenciar a eleição da Mesa Diretora e assegurar a permanência de um mesmo grupo no comando do Parlamento.
INVESTIGAÇÃO
A peça acusatória descreve, em tese, um conjunto de ilícitos que inclui lavagem de dinheiro, peculato, grilagem, "gafanhotagem" e outros crimes contra a administração pública. Não se trata de uma narrativa construída apenas sobre ilações. Segundo os autos, há um volumoso conjunto probatório reunido ao longo da investigação, composto por interceptações telefônicas, escutas ambientais, registros de encontros entre investigados em hotéis, além do monitoramento de assessores transportando envelopes que, de acordo com a suspeita dos investigadores, conteriam dinheiro destinado às operações descritas na denúncia.
ESCÂNDALO
Caso esse acervo probatório resista ao contraditório e seja confirmado pela Justiça, Rondônia poderá estar diante de um dos mais graves escândalos políticos das últimas décadas. O jornalista Rubens Coutinho, do portal Tudo Rondônia, foi quem retirou o caso da sombra e revelou ao público detalhes da investigação.
ORIGEM
A denúncia menciona os deputados estaduais Alex Redano, Laerte Gomes e Jean Oliveira, todos com direito à ampla defesa e ao contraditório, garantias que devem ser respeitadas em qualquer Estado Democrático de Direito. Mas há um aspecto impossível de ignorar. O caso já deu origem a outros oito inquéritos, indicando que a investigação pode alcançar dimensões ainda maiores.
REINCIDÊNCIA
A impressão transmitida pelos autos é a de que as velhas práticas que tantos prejuízos causaram à imagem da Assembleia Legislativa talvez nunca tenham desaparecido completamente. Apenas permaneceram adormecidas por algum tempo.
DEGRADAÇÃO
É impossível não recordar um passado recente, quando diversos ex-deputados estaduais acabaram condenados e cumpriram longas penas por esquemas de corrupção que transformaram o Parlamento rondoniense em símbolo nacional de degradação institucional. A sociedade acreditou que aquela página havia sido definitivamente virada.
SEMELHANÇA
A denúncia agora apresentada, se vier a ser confirmada pelo Poder Judiciário, sugere exatamente o contrário: o enredo pode ter mudado de personagens, mas conserva um roteiro perigosamente semelhante.
FANTASMA
A Assembleia Legislativa existe para representar os interesses da população, fiscalizar o Executivo e produzir leis. Quando passa a ocupar espaço predominante nas páginas policiais, perde autoridade moral para cobrar ética de qualquer outro Poder. Se as acusações forem improcedentes, que os investigados sejam absolvidos e suas honras restauradas. Mas, se forem confirmadas, Rondônia terá a amarga constatação de que o fantasma da corrupção parlamentar nunca foi exorcizado. Apenas esperava a oportunidade para voltar à cena.
CRÍTICAS
O deputado federal e pré-candidato ao Senado Fernando Máximo tem intensificado as críticas à situação da saúde pública de Rondônia. O problema é que ele não observa esse cenário da arquibancada. Durante quase quatro anos, foi secretário estadual de Saúde do governo Marcos Rocha e ocupou a principal cadeira responsável pela condução da política pública que hoje critica.
CONTRADIÇÃO
É natural que um parlamentar fiscalize a administração. O que desperta questionamentos é quando a crítica desconsidera o próprio histórico de gestão. Se os problemas estruturais da saúde persistem, é inevitável que parte do debate recaia sobre quem comandou a pasta por um período tão longo.
RESPONSÁVEL
O caso do Heuro simboliza essa contradição. Fernando Máximo afirma que deixou o projeto encaminhado e que os problemas surgiram apenas após sua saída da Secretaria. Entretanto, toda a modelagem administrativa, os procedimentos preparatórios e a condução do processo licitatório ocorreram durante sua gestão.
COMEMORAÇÃO
Mais do que isso, no dia do leilão realizado na Bolsa de Valores de São Paulo, Fernando Máximo estava ao lado do governador Marcos Rocha comemorando o resultado como uma conquista histórica para Rondônia. À época, o discurso era de sucesso absoluto.
ATRASO
Com o passar do tempo, porém, o projeto transformou-se em uma das maiores frustrações da saúde pública estadual. O Estado acabou abortando o contrato ao constatar que a empresa vencedora não reunia condições de executar uma obra dessa dimensão. O resultado foi um enorme atraso para uma população que continua aguardando um hospital prometido há anos. Politicamente, é difícil dissociar esse desfecho de quem participou diretamente da concepção, da modelagem e da celebração do processo.
DECISÃO
Outro argumento frequentemente utilizado pelo parlamentar é a aquisição de um hospital durante a pandemia. Evidentemente, a Secretaria de Saúde participou da condução técnica da operação. Mas decisões dessa natureza pertencem ao governo e são tomadas sob a liderança do chefe do Executivo. Atribuir exclusivamente a si uma decisão institucional simplifica um processo que envolveu toda a estrutura administrativa do Estado.
OMISSO
Também chama atenção sua atuação discreta em temas de grande impacto para Rondônia, como a concessão da BR-364. O modelo implantado gerou críticas pelo elevado custo dos pedágios e pelas expectativas ainda não concretizadas em relação às obras de duplicação. Como deputado federal, Fernando Máximo teve espaço para participar desse debate com maior intensidade.
RESPONSÁVEL
O Hospital João Paulo II permanece enfrentando problemas históricos. O novo hospital continua distante da realidade. A saúde estadual ainda convive com dificuldades conhecidas da população. São questões que fazem parte do legado de diferentes governos, inclusive do período em que Fernando Máximo esteve à frente da Secretaria.
ESTRATÉGIA
Agora, em pré-campanha ao Senado, o deputado percorre os municípios reforçando a imagem construída durante a pandemia e associando sua trajetória pública a frequentes referências à fé. Trata-se de uma estratégia legítima de comunicação política. Mas nenhuma narrativa, por eficiente que seja, substitui a necessidade de prestar contas da própria gestão.
COERÊNCIA
Na política, a coerência continua sendo um dos critérios mais importantes para avaliar um homem público. Antes de cobrar os outros, todo candidato precisa estar disposto a responder pelas decisões das quais participou. O eleitor, por sua vez, ganha mais quando confronta discursos com fatos e marketing com resultados.